Cento e cinquenta anos antes de Roma inaugurar o Coliseu, Pompeia já tinha sua própria arena de pedra para gladiadores. Construído por volta de 70 a.C. graças às doações de dois magistrados locais, Caio Quíncio Valgo e Marco Pórcio, o Anfiteatro de Pompeia é hoje reconhecido como o mais antigo anfiteatro romano de alvenaria que ainda existe de pé — e sobreviveu a uma catástrofe que apagou a cidade inteira do mapa por quase 1.700 anos.
Uma arena erguida com a própria terra que escavou
O anfiteatro fica encostado no canto sudeste das muralhas de Pompeia, numa área que até então era pouco ocupada. Os construtores aproveitaram essa posição de forma inteligente: em vez de erguer uma estrutura elevada em arcos como seria feito depois em Roma, escavaram o chão para formar a arena central e usaram a terra retirada para levantar os taludes da cavea, a arquibancada. O resultado é uma construção elíptica que, apoiada parcialmente nas muralhas da cidade, dispensava boa parte da engenharia complexa que marcaria anfiteatros posteriores.
Com capacidade estimada em cerca de 20 mil espectadores, a arena comportava mais gente do que a população da própria Pompeia — sinal de que o local também recebia público das cidades vizinhas da região da Campânia para assistir a combates de gladiadores e caçadas de animais (as chamadas venationes).
O interior da arena, com a cavea que hoje ainda recebe visitantes
A briga de torcida que parou os jogos por dez anos
Nem tudo nessa arena foi disputa esportiva pacífica. No ano 59 d.C., durante um combate de gladiadores, uma rixa antiga entre moradores de Pompeia e da vizinha Nuceria degenerou em confronto generalizado dentro do próprio anfiteatro. O historiador romano Tácito registrou o episódio em seus Anais: o que começou com xingamentos entre as torcidas terminou em pedradas, armas e mortos dos dois lados. O caso chegou ao Senado romano, e a punição foi dura — Pompeia ficou proibida de realizar espetáculos de gladiadores por uma década, associações consideradas ilegais foram dissolvidas e o senador Lívinio Régulo, apontado como organizador dos jogos, acabou exilado junto com outros responsabilizados pelo tumulto.
Soterrado pelo Vesúvio, redescoberto séculos depois
Vinte anos após a briga registrada por Tácito, em 79 d.C., o Monte Vesúvio entrou em erupção e sepultou Pompeia sob camadas de cinzas e piroclastos que chegaram a ser lançadas a mais de 30 quilômetros de altura. A cidade, com uma população estimada entre 11 mil e 20 mil habitantes, foi soterrada quase por completo — e assim permaneceu, esquecida, até que o arquiteto Domenico Fontana esbarrou acidentalmente nas ruínas no fim do século XVI. As escavações sistemáticas só começariam em 1748, sob patrocínio dos reis de Nápoles.
Foi apenas em 1863 que o arqueólogo Giuseppe Fiorelli, então à frente das escavações, teve um insight que mudaria a forma como o mundo entenderia a tragédia: ao notar cavidades vazias nas camadas endurecidas de cinza, ele percebeu que eram o espaço deixado pelos corpos das vítimas, já decompostos. Fiorelli passou a injetar gesso líquido nesses vazios, recriando com precisão as posturas finais — e até expressões — dos moradores surpreendidos pela erupção. Muitos desses moldes continuam expostos no próprio sítio arqueológico até hoje.
Um dos moldes de gesso criados a partir da técnica de Fiorelli
Em 1997, o conjunto arqueológico de Pompeia, Herculano e Torre Annunziata entrou para a lista de Patrimônio Mundial da UNESCO, e o parque arqueológico voltou a atrair multidões: mais de 4 milhões de visitantes passaram pelo sítio em 2024, muitos deles parando justamente diante da arena que, quase 2.100 anos atrás, já enchia as arquibancadas antes mesmo de existir o Coliseu.
- 70 a.C.: construção do anfiteatro, cerca de 150 anos antes do Coliseu de Roma
- 59 d.C.: motim entre torcidas de Pompeia e Nuceria, registrado por Tácito
- 79 d.C.: erupção do Vesúvio soterra a cidade
- 1748: início das escavações sistemáticas
- 1863: Giuseppe Fiorelli desenvolve a técnica dos moldes de gesso
- 1997: Pompeia é declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO


Seja o primeiro a comentar.