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📍 São Miguel das Missões

São Miguel das Missões: a igreja jesuíta que um arquiteto italiano ergueu em pedra e um povo guarani defendeu com a vida

Ruínas da igreja jesuítica de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, Rio Grande do Sul

Foto: Wikimedia Commons

A fachada tem quase 30 metros de altura, mas não guarda mais teto, nem altares, nem os guaranis que a esculpiram pedra por pedra. As ruínas de São Miguel Arcanjo, no interior do Rio Grande do Sul, são o que restou da mais imponente das missões jesuíticas do sul do Brasil — um templo barroco erguido no século XVIII por um arquiteto milanês e um povo que a história tentou apagar duas vezes.

Uma redução que nasceu fugindo

A história de São Miguel começa em 1632, quando os padres jesuítas espanhóis Cristóvão de Mendoza e Pablo Benavides fundaram uma redução guarani em Itaiacecó, às margens do rio Ibicuí. O aldeamento não durou muito: bandeirantes paulistas, que caçavam indígenas para escravizar, atacavam sistematicamente as reduções da região do Tape, e em 1640 os guaranis sobreviventes precisaram atravessar o rio Uruguai em busca de refúgio.

Só em 1687 São Miguel foi reerguida no local onde hoje estão as ruínas, às margens do rio Piratini. A população voltou a crescer — chegou a somar cerca de sete mil pessoas — e a missão passou a integrar os Sete Povos das Missões, o conjunto de reduções orientais administradas pelos jesuítas:

  • São Francisco de Borja
  • São Nicolau
  • São Miguel Arcanjo
  • São Lourenço Mártir
  • São João Batista
  • São Luiz Gonzaga
  • Santo Ângelo Custódio

O templo que um jesuíta italiano desenhou em arenito

Fachada barroca em pedra arenito da igreja de São Miguel Arcanjo

A fachada barroca foi erguida em pedra arenito, com mão de obra guarani

A igreja que hoje define a paisagem de São Miguel começou a ser erguida em 1735, projetada pelo padre jesuíta milanês Giovanni Battista Primoli em estilo barroco. Primoli conduziu a construção da nave, da fachada e da torre em pedra arenito extraída da região, com mão de obra inteiramente guarani — os mesmos indígenas que talhavam a pedra também esculpiam os detalhes ornamentais sob orientação europeia. O catalão José Grimau ficou responsável pelo pórtico. Primoli deixou a obra praticamente pronta em 1744, quando partiu para o Paraguai; faltavam apenas a carpintaria e o telhado, concluídos por volta de 1750 — o mesmo ano em que um tratado assinado do outro lado do Atlântico decretaria o fim de tudo.

O Tratado de Madri e a Guerra Guaranítica

Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri, trocando território: a Espanha cedeu a área dos Sete Povos das Missões a Portugal em troca da Colônia do Sacramento, no atual Uruguai. O acordo previa que os guaranis abandonassem as terras onde já viviam havia gerações. Padres e indígenas se recusaram a sair, e o confronto armado — a Guerra Guaranítica — começou.

Em São Miguel, o corregedor guarani Sepé Tiaraju, nascido por volta de 1723 dentro da própria redução, liderou a resistência. Ele morreu em combate em 7 de fevereiro de 1756, perto do atual município de São Gabriel; seu corpo nunca foi encontrado, o que alimentou lendas de que teria subido aos céus. Três dias depois, em 10 de fevereiro de 1756, tropas combinadas espanholas e portuguesas — cerca de três mil soldados — esmagaram os guaranis na Batalha de Caiboaté, matando aproximadamente 1.500 indígenas em poucas horas.

Da ruína tomada pelo mato ao Patrimônio Mundial

Vista das ruínas de pedra da redução jesuítica de São Miguel Arcanjo

As ruínas ficaram mais de um século entregues ao mato antes de virarem patrimônio protegido

Com os jesuítas expulsos das possessões espanholas e portuguesas nas décadas seguintes e a população guarani dispersa, São Miguel foi abandonada e ficou mais de um século entregue à vegetação — telhados caindo, madeira apodrecendo, apenas as paredes de pedra resistindo ao tempo. A redescoberta veio no século XX: em 1940 o arquiteto Lúcio Costa projetou o Museu das Missões, inaugurado em 1941 ao lado das ruínas para abrigar a maior coleção pública de arte sacra guarani-jesuítica do Mercosul. Em 1983, a Unesco declarou o sítio Patrimônio Mundial, ao lado de quatro reduções irmãs do lado argentino da fronteira.

Hoje, à noite, um espetáculo de som e luz criado em 1978 projeta sobre as pedras a narrativa dos guaranis que ergueram, defenderam e perderam aquele templo — a mesma pedra arenito que Primoli desenhou continua de pé, sem teto, contando uma história que o Tratado de Madri tentou apagar em 1750 e que a Unesco decidiu preservar para sempre.

Onde fica

  • Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo Histórico
    Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, São Miguel das Missões - RS
  • Museu das Missões Histórico
    Museu das Missões, São Miguel das Missões - RS

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📍 Granada
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Gran Café Bib-Rambla: o café mais antigo de Granada, na praça mais viva da cidade

Aberto sem parar desde 1907, o Gran Café Bib-Rambla ocupa o mesmo endereço na praça mais central de Granada há mais de um século. A casa é parada certa para churros com chocolate e um café da manhã na varanda com vista para a fonte de Netuno.

Fachada do Gran Café Bib-Rambla na Plaza Bib-Rambla, em Granada

Foto: Wikimedia Commons

Onde fica

  • Gran Café Bib-Rambla Cafeteria
    Gran Café Bib-Rambla, Plaza Bib-Rambla, Granada, Espanha
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Palácio de Cristal: a estufa de ferro vinda da França onde a Princesa Isabel entregou 127 cartas de alforria

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Apesar do nome, o Palácio de Cristal não é de cristal: é de vidro, sobre uma estrutura de ferro fundido. A peça veio pré-fabricada da França, das oficinas da Société Anonyme de Saint-Sauveur, em Arras, encomendada pelo Conde d'Eu como presente para a esposa, a Princesa Isabel, que queria um lugar para cultivar plantas. A inspiração eram os palácios de cristal de Londres e do Porto. Foi inaugurado em 1884.

O prédio entrou para a história da abolição. No Domingo de Páscoa de 1888, o palácio foi enfeitado com uma grande cruz de ramos e flores com a frase "Viva a liberdade", e a princesa, o Conde d'Eu e os filhos entregaram ali 127 cartas de alforria a pessoas escravizadas da cidade. Semanas depois, em 13 de maio, Isabel assinaria a Lei Áurea.

O IPHAN protegeu o palácio provisoriamente em 1960 e o tombou em definitivo em 1967. Fica num pequeno parque no Centro e a entrada é gratuita. Para quem gosta de jardim, vale reparar nos vidros coloridos e imaginar o espaço como ele foi pensado: uma estufa para exposições de plantas.

Palácio de Cristal de Petrópolis

Foto: Rafael Henrique Serra / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Onde fica

  • Palácio de Cristal Histórico
    Rua Alfredo Pachá
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📍 Nápoles
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Gran Caffè Gambrinus: o café de 1860 que o regime fascista fechou acusando de abrigar antifascistas

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O empresário Vincenzo Apuzzo abriu um "Gran Caffè" em 1860 no térreo do Palazzo della Foresteria, entre a Via Chiaia e a praça que hoje se chama Trieste e Trento, a poucos passos do Palácio Real e da Piazza del Plebiscito. A casa chegou a ter o título de fornecedora da Casa Real.

Quarenta artistas e um rei da cerveja

Em 1890, Mariano Vacca arrendou o espaço e chamou o arquiteto Antonio Curri, que coordenou mais de quarenta artesãos e artistas na reforma: mármores, estuques, espelhos e telas de pintores napolitanos como Luca Postiglione, Pietro Scoppetta, Vincenzo Migliaro e Giuseppe Casciaro. O café reabriu em 3 de novembro de 1890 com o nome de Gran Caffè Gambrinus, homenagem a Gambrinus, o lendário rei flamengo associado à cerveja. As salas ganharam nomes próprios, como a sala dos espelhos e a sala redonda.

Quem passou por ali

A lista de frequentadores citada pela própria história da casa inclui Gabriele D'Annunzio, Matilde Serao, Benedetto Croce, Oscar Wilde, Ernest Hemingway, Jean-Paul Sartre, Totò e os irmãos De Filippo. Foi justamente essa freguesia de intelectuais que causou problema: em 5 de agosto de 1938, o prefeito fascista Giovanni Battista Marziali mandou fechar o café, considerado ponto de encontro de antifascistas, e parte do espaço foi ocupada pelo Banco di Napoli. A reabertura veio depois da guerra, pelas mãos do empresário Michele Sergio, e os filhos dele, Arturo e Antonio, completaram a restauração das salas.

O que pedir

Um espresso no balcão, do jeito napolitano, e uma sfogliatella. O Gambrinus faz parte da Associazione Locali Storici d'Italia, e no balcão costuma ficar o bule do caffè sospeso, o costume napolitano de deixar um café pago para o próximo que não puder pagar.

Fachada do Gran Caffè Gambrinus, na esquina da Via Chiaia com a Piazza Trieste e Trento, em Nápoles

Foto: Palickap / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Onde fica

  • Gran Caffè Gambrinus Cafeteria
    Via Chiaia, 1/2, 80132 Napoli NA, Itália
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