No sábado, 20 de maio de 1972, quem passou pelo trecho central da Rua XV de Novembro encontrou um canteiro de obras onde na véspera havia carro. A prefeitura de Curitiba tinha decidido fechar seis quarteirões ao tráfego e transformá-los em calçadão — e decidiu fazer isso num fim de semana, sem aviso, exatamente para que ninguém tivesse tempo de conseguir uma liminar que travasse a obra.
Deu certo. O trecho é apontado até hoje como a primeira rua brasileira entregue exclusivamente aos pedestres, e a decisão virou cartão de visita do urbanismo que projetou Curitiba no resto do mundo.
Rua das Flores, Rua da Imperatriz, Rua XV
A via mudou de nome mais de uma vez antes de virar símbolo. Entre 1850 e 1880 era conhecida como Rua das Flores. A partir de 1880 passou a Rua da Imperatriz. O nome atual chegou em 1889, logo depois da proclamação da República em 15 de novembro — e a rua ficou com a data no lugar do título imperial.
Hoje ela se estende por cerca de 3.300 metros, dos quais só o miolo é fechado ao trânsito. É nesse miolo, calçado em petit-pavé, que estão os prédios que a cidade aprendeu a reconhecer de longe: o Palácio Avenida, o edifício histórico da UFPR, a Reitoria.
Setenta e duas horas de asfalto arrancado
O prefeito era Jaime Lerner, arquiteto, no primeiro dos três mandatos que cumpriria na cidade. A operação foi montada como uma operação militar de logística: os caminhões com as pedras chegaram na noite de sexta-feira, as máquinas entraram em seguida e a obra correu direto pelo fim de semana.
Não foi só arrancar asfalto. Assim que o piso ficou pronto, a prefeitura plantou árvores já adultas e instalou floreiras ao longo do trecho — a ideia era que na segunda-feira a rua não parecesse uma obra recém-terminada, e sim um calçadão que já estava ali.
As crianças que venceram o automóvel
A parte mais contada da história aconteceu no sábado de manhã. Lojistas e o clube de automobilismo local tinham anunciado um protesto: entrariam de carro no trecho fechado para forçar a reabertura.
A prefeitura respondeu distribuindo papel e tinta para crianças desenharem no chão da rua nova. Quando os carros chegaram, encontraram dezenas de crianças espalhadas pelo calçadão pintando. O protesto não passou dali.
O episódio virou, com o tempo, um dos exemplos mais citados de como Curitiba resolveu disputas de espaço urbano no período — ocupando o espaço antes que a discussão sobre ele começasse.
O que ficou
Dois anos depois, em 1974, uma lei estadual protegeu o conjunto como patrimônio paisagístico, o que tirou a reversão da mesa de vez. A fórmula foi copiada por dezenas de cidades brasileiras nas duas décadas seguintes.
O calçadão continua sendo o corredor de pedestres mais movimentado da cidade, com feira de artesanato, banca de flores, confeitarias antigas e o relógio de rua que serve de ponto de encontro desde antes da obra.
Perguntas frequentes
Quando a Rua XV virou calçadão? Em 20 de maio de 1972, quando parte da via foi fechada à circulação de automóveis.
Por que a obra foi feita num fim de semana? Para não dar tempo de o comércio obter uma decisão judicial que suspendesse o fechamento antes de ele estar pronto.
Qual a extensão da rua? Cerca de 3.300 metros no total; o trecho exclusivo de pedestres é o miolo central, calçado em petit-pavé.



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