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Rua XV de Novembro: o calçadão que Curitiba construiu num fim de semana para não dar tempo de liminar

Calçadão da Rua XV de Novembro, no centro de Curitiba

Foto: Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0

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No sábado, 20 de maio de 1972, quem passou pelo trecho central da Rua XV de Novembro encontrou um canteiro de obras onde na véspera havia carro. A prefeitura de Curitiba tinha decidido fechar seis quarteirões ao tráfego e transformá-los em calçadão — e decidiu fazer isso num fim de semana, sem aviso, exatamente para que ninguém tivesse tempo de conseguir uma liminar que travasse a obra.

Deu certo. O trecho é apontado até hoje como a primeira rua brasileira entregue exclusivamente aos pedestres, e a decisão virou cartão de visita do urbanismo que projetou Curitiba no resto do mundo.

Rua das Flores, Rua da Imperatriz, Rua XV

A via mudou de nome mais de uma vez antes de virar símbolo. Entre 1850 e 1880 era conhecida como Rua das Flores. A partir de 1880 passou a Rua da Imperatriz. O nome atual chegou em 1889, logo depois da proclamação da República em 15 de novembro — e a rua ficou com a data no lugar do título imperial.

Hoje ela se estende por cerca de 3.300 metros, dos quais só o miolo é fechado ao trânsito. É nesse miolo, calçado em petit-pavé, que estão os prédios que a cidade aprendeu a reconhecer de longe: o Palácio Avenida, o edifício histórico da UFPR, a Reitoria.

Setenta e duas horas de asfalto arrancado

O prefeito era Jaime Lerner, arquiteto, no primeiro dos três mandatos que cumpriria na cidade. A operação foi montada como uma operação militar de logística: os caminhões com as pedras chegaram na noite de sexta-feira, as máquinas entraram em seguida e a obra correu direto pelo fim de semana.

Não foi só arrancar asfalto. Assim que o piso ficou pronto, a prefeitura plantou árvores já adultas e instalou floreiras ao longo do trecho — a ideia era que na segunda-feira a rua não parecesse uma obra recém-terminada, e sim um calçadão que já estava ali.

As crianças que venceram o automóvel

A parte mais contada da história aconteceu no sábado de manhã. Lojistas e o clube de automobilismo local tinham anunciado um protesto: entrariam de carro no trecho fechado para forçar a reabertura.

A prefeitura respondeu distribuindo papel e tinta para crianças desenharem no chão da rua nova. Quando os carros chegaram, encontraram dezenas de crianças espalhadas pelo calçadão pintando. O protesto não passou dali.

O episódio virou, com o tempo, um dos exemplos mais citados de como Curitiba resolveu disputas de espaço urbano no período — ocupando o espaço antes que a discussão sobre ele começasse.

O que ficou

Dois anos depois, em 1974, uma lei estadual protegeu o conjunto como patrimônio paisagístico, o que tirou a reversão da mesa de vez. A fórmula foi copiada por dezenas de cidades brasileiras nas duas décadas seguintes.

O calçadão continua sendo o corredor de pedestres mais movimentado da cidade, com feira de artesanato, banca de flores, confeitarias antigas e o relógio de rua que serve de ponto de encontro desde antes da obra.

Perguntas frequentes

Quando a Rua XV virou calçadão? Em 20 de maio de 1972, quando parte da via foi fechada à circulação de automóveis.

Por que a obra foi feita num fim de semana? Para não dar tempo de o comércio obter uma decisão judicial que suspendesse o fechamento antes de ele estar pronto.

Qual a extensão da rua? Cerca de 3.300 metros no total; o trecho exclusivo de pedestres é o miolo central, calçado em petit-pavé.

Onde fica

  • Calçadão da Rua XV de Novembro Local
    Rua XV de Novembro, Centro, Curitiba - PR

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Biatüwi: a primeira casa de comida indígena do Brasil, no Centro Histórico de Manaus

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O Biatüwi foi a primeira casa de comida indígena a abrir no Brasil, unindo ingredientes e saberes das etnias Tukano, do Alto Rio Negro, e Sateré-Mawé, do Baixo Amazonas. O cardápio muda com a temporada e traz peixes como o pirarucu preparados com técnicas ancestrais.

Funciona de quarta a sábado, no horário de almoço, dentro de um casarão do Centro Histórico — reserve com antecedência, os lugares são concorridos.

Fachada do restaurante Biatüwi, casa de comida indígena em Manaus

Foto: Ajmcbarreto / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Onde fica

  • Biatüwi Casa de Comida Indígena Restaurante
    Rua Bernardo Ramos, 97, Centro, Manaus, AM
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The Long Hall: o bar vitoriano de Dublin que quase não mudou desde 1881

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Na South Great George's Street, o The Long Hall tem licença para vender bebida desde 1766, o que o coloca entre os pubs mais antigos de Dublin. Mas o que impressiona quem entra é o interior de 1881: naquele ano, o proprietário Patrick Dolan concluiu uma reforma no estilo vitoriano que sobrevive quase intacta, com madeira entalhada à mão, espelhos de bordas biseladas, balcão de mogno, folha de ouro no teto e um relógio antigo no fundo do salão.

O nome vem do formato: um corredor comprido e estreito que leva do balcão da frente até a sala dos fundos. Na década de 1860, antes da reforma, o bar era ponto de encontro de fenianos, o movimento republicano irlandês, e relatos da época dizem que a fracassada revolta de 1867 foi articulada ali, até que agentes britânicos se infiltraram e o local foi fechado por um tempo.

Hoje o Long Hall é parada quase obrigatória de quem procura um pub tradicional no centro, sem música alta nem telas de TV, uma raridade cada vez maior na área.

Fachada vermelha do pub The Long Hall, em Dublin

Foto: Rossographer / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Onde fica

  • The Long Hall Bar
    51 South Great George's Street, Dublin 2, D02 X199, Irlanda
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Kahal Zur Israel: a sinagoga que o Recife holandês ergueu para virar berço da Nova York judaica

Fachada da Sinagoga Kahal Zur Israel, no Bairro do Recife

Foto: Wikimedia Commons

Em 1636, numa rua estreita do bairro portuário do Recife, um grupo de judeus sefarditas inaugurou a primeira sinagoga oficial das Américas. Deram a ela o nome de Kahal Zur Israel — "Comunidade Rochedo de Israel" — e ali, sob a proteção da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, praticaram abertamente uma fé que a Inquisição portuguesa perseguia havia mais de um século.

A liberdade religiosa da Nova Holanda

Quando as tropas holandesas tomaram Pernambuco em 1630, trouxeram consigo algo raro para a América colonial: tolerância religiosa. A política adotada pela Companhia das Índias Ocidentais, reforçada durante o governo do conde Maurício de Nassau, abriu espaço para que judeus sefarditas — muitos deles descendentes de famílias que haviam fugido de Portugal e Espanha para os Países Baixos décadas antes — migrassem para o Recife em busca da liberdade de culto que não existia sob domínio português. Estima-se que, no auge, a comunidade judaica somasse mais de mil pessoas na colônia, boa parte concentrada na antiga Rua dos Judeus, hoje Rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife.

Foi ali que a Kahal Zur Israel funcionou como sinagoga entre 1636 e 1654, com escola religiosa e vida comunitária organizada em torno dela. Em 1641, chegou ao Recife o rabino luso-holandês Isaac Aboab da Fonseca, que permaneceu na cidade por 13 anos e é considerado o primeiro rabino a atuar nas Américas — décadas antes de qualquer sinagoga formal existir na América do Norte.

Fachada da Sinagoga Kahal Zur Israel no Bairro do Recife

A antiga Rua dos Judeus, hoje Rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife

A reconquista portuguesa e a rota até Nova York

A tolerância durou pouco menos de duas décadas. Com a derrota holandesa na Insurreição Pernambucana, selada na Batalha dos Guararapes, Portugal retomou o controle da região em 1654 — e trouxe de volta o risco da perseguição religiosa para quem praticava o judaísmo abertamente. A comunidade da Kahal Zur Israel se dispersou às pressas.

  • 1630 — tropas holandesas conquistam Pernambuco e instauram a tolerância religiosa
  • 1636 — fundação da Kahal Zur Israel, primeira sinagoga das Américas
  • 1641 — chegada do rabino Isaac Aboab da Fonseca, que fica 13 anos no Recife
  • 1654 — reconquista portuguesa força a dispersão da comunidade judaica
  • 1654 — um grupo de 23 refugiados desembarca em Nova Amsterdã, atual Nova York

Parte das famílias retornou à Holanda a bordo de navios como o Valk. Mas um pequeno grupo de 23 refugiados seguiu outro caminho e desembarcou em Nova Amsterdã, colônia holandesa que os ingleses rebatizariam de Nova York uma década depois. Ali, esses judeus recifenses fundaram a Congregation Shearith Israel, a mais antiga comunidade judaica organizada da América do Norte, que segue ativa até os dias de hoje na cidade de Nova York. A sinagoga nascida no Recife colonial teve, assim, um papel direto — e pouco lembrado — na formação da vida judaica nos Estados Unidos.

Da memória soterrada ao museu de hoje

Depois de 1654, o prédio da Kahal Zur Israel foi ocupado por outros usos ao longo dos séculos seguintes, e sua localização exata acabou esquecida pela cidade. A situação só mudou entre 1999 e 2000, quando escavações arqueológicas no número 197 da Rua do Bom Jesus confirmaram o local: os pesquisadores encontraram um poço e um mikvê — banho ritual judaico de purificação — com sete degraus, elementos que comprovaram tratar-se do sítio da antiga sinagoga.

Interior restaurado da Sinagoga Kahal Zur Israel, hoje centro cultural

O espaço reconstruído funciona hoje como museu e centro cultural

A descoberta motivou um projeto de restauração que devolveu o edifício ao público em outubro de 2001, agora reconstruído como museu e centro cultural. Hoje, o Centro Cultural Judaico do Recife ocupa o mesmo endereço onde, quase quatro séculos atrás, uma comunidade recém-chegada ergueu a primeira sinagoga das Américas, reunindo painéis, achados arqueológicos e réplicas que contam a curta e intensa passagem judaica pelo Recife holandês — e, sem saber, plantaram também a semente da mais antiga congregação judaica de Nova York.

Onde fica

  • Sinagoga Kahal Zur Israel Histórico
    Sinagoga Kahal Zur Israel, Rua do Bom Jesus, Recife - Pernambuco

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