O Guinness World Records confirmou: o Natal Luz de Gramado é o festival natalino mais longo do planeta, com quase três meses de programação todos os anos. Difícil imaginar que tudo começou com tropeiros cansados procurando um lugar macio para descansar o gado no topo da Serra Gaúcha.
Uma pausa na serra que virou nome de cidade
Antes de qualquer colonizador, a região era ocupada pelos índios caingangues. A partir da segunda metade do século 19, tropeiros — muitos deles descendentes de açorianos vindos de cidades como Lages — passaram a cruzar a serra conduzindo gado entre o litoral e os campos de cima da serra. No alto do trajeto, encontravam um trecho plano coberto de grama macia, cercado de árvores e nascentes de água: um gramado, no sentido literal da palavra, que servia de pouso para homens e animais exaustos. Foi esse pedaço de capim que deu nome ao lugar.
O povoamento efetivo, porém, é mais recente. Foi somente a partir de 1913 que descendentes de imigrantes alemães e italianos — que já ocupavam colônias mais antigas do Rio Grande do Sul, como São Leopoldo — começaram a se instalar na região, atraídos pelo clima frio e pela terra fértil da serra. Eram essas famílias teuto e ítalo-brasileiras que, nas décadas seguintes, dariam a Gramado sua identidade arquitetônica e cultural, hoje um dos maiores atrativos da cidade.
Igreja Matriz São Pedro, erguida com 78 mil pedras basálticas no centro de Gramado.
Pedra por pedra: a igreja que uniu a colônia
Em 29 de junho de 1917, dia de São Pedro, o arcebispo Dom João Becker instituiu a Paróquia de São Pedro de Gramado, então servida por uma singela capela de madeira. Com o crescimento da colônia, a comunidade decidiu erguer um templo à altura: em 1943 começou a construção da igreja de pedra que hoje domina o centro da cidade, com cerca de 78 mil pedras basálticas extraídas de pedreiras próximas e transportadas em carroças puxadas por bois. A obra, de inspiração românica, levou cerca de oito anos para ficar pronta, com torre de 46 metros e vitrais que retratam cenas da vida do apóstolo Pedro, pintados pelo artista alemão Pedro Dobmeier.
A igreja não foi só um marco religioso: virou o centro simbólico de uma cidade que ainda nem existia oficialmente. Gramado seguia sendo distrito do município vizinho de Taquara, sem autonomia administrativa própria, mesmo já reunindo uma comunidade organizada em torno da paróquia, da lavoura e do comércio de estrada.
De distrito de Taquara a capital do turismo de montanha
A emancipação política só veio décadas depois: pela Lei estadual 2.522, de 15 de dezembro de 1954, Gramado deixou de ser distrito de Taquara e tornou-se município autônomo. Mesmo assim, ainda faltava o que transformaria a pequena cidade de colonização europeia em destino turístico nacional.
Isso aconteceu em 1986, quando o então secretário de turismo Luciano Peccin voltou de uma viagem à Disney encantado com a decoração natalina dos parques americanos e decidiu recriar algo parecido em Gramado. Em 26 de dezembro daquele ano, mais de 700 cantores e 20 "Papais Noéis" desfilaram pelas ruas à luz de velas, com concerto da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre sob regência do maestro Eleazar de Carvalho. Nascia o Natal Luz.
- Séc. 19: tropeiros batizam o "gramado" que dá nome à futura cidade
- 1913: início da colonização por descendentes de alemães e italianos
- 1917: criação da Paróquia de São Pedro, ainda numa capela de madeira
- 1943: começa a construção da atual Igreja Matriz, em pedra basáltica
- 1954: Gramado se emancipa de Taquara e vira município
- 1986: primeira edição do Natal Luz
O Lago Negro, hoje um dos símbolos do turismo que transformou a economia da cidade.
Menos de quatro décadas depois daquela primeira procissão de velas, o evento que nasceu como aposta de um secretário de turismo bateu recorde reconhecido pelo Guinness como o Natal mais longo do mundo. A mesma cidade que um dia foi apenas um ponto de descanso na rota dos tropeiros — e, por muito tempo, nem sequer teve autonomia para governar a si mesma — hoje vive majoritariamente do turismo que aquela decisão de 1986 ajudou a criar.




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