Da janela octogonal de uma torre com cúpula de mármore, um homem de mais de 70 anos observava o rio Yamuna. Do outro lado da água, a cerca de 2,5 quilômetros, erguia-se o monumento branco que ele havia mandado construir para a esposa. Ele não podia sair dali. Esse homem era Shah Jahan, o imperador mogol que ergueu o Taj Mahal — e a torre era parte do Forte de Agra, onde passou os últimos oito anos da vida como prisioneiro do próprio filho.
Uma prisão com vista para a obra-prima
Em 1658, o príncipe Aurangzeb depôs o pai, Shah Jahan, numa disputa de sucessão pelo trono mogol, e o manteve sob prisão domiciliar no Forte de Agra até sua morte, em 1666. O antigo imperador foi confinado em aposentos junto ao Musamman Burj (também chamado Shah Burj), uma torre octogonal com cúpula de mármore branco incrustada de pedras semipreciosas, que ele mesmo havia mandado erguer entre 1632 e 1640 para sua esposa, Mumtaz Mahal. Ao seu lado ficou apenas a filha mais velha, Jahanara Begum, que cuidou dele até o fim. Da janela da torre, banhada por uma claraboia com vista privilegiada, o único horizonte possível era o mausoléu erguido em memória da mulher que havia perdido décadas antes.
De fortaleza militar a cidade murada
O Forte de Agra não nasceu como palácio de lamentações. O local já era ocupado por uma fortificação anterior quando o imperador Akbar, avô de Shah Jahan, decidiu reconstruí-lo por completo a partir de 1565. As obras, concluídas em 1573, mobilizaram mais de 4 mil trabalhadores e usaram arenito vermelho extraído da região de Barauli, no distrito de Dhaulpur, então parte do Rajastão. Até 1638, quando a capital do império mogol foi transferida para Delhi, o forte funcionou como residência principal dos imperadores e centro administrativo do reino. Foi Shah Jahan quem, décadas depois de Akbar, deu ao complexo boa parte de seu brilho atual: mandou revestir trechos do interior com mármore branco, construiu a Moti Masjid (Mesquita da Pérola) para uso privado da corte e ergueu o Diwan-i-Khas, salão reservado a audiências com convidados de maior importância.

Diwan-i-Am, o salão onde o imperador recebia petições públicas
Dentro das muralhas de 2,5 quilômetros
Visto de cima, o Forte de Agra tem planta semicircular e é cercado por uma muralha dupla de arenito vermelho de cerca de 21 metros de altura, protegida por um fosso que outrora podia ser inundado com água do Yamuna. O perímetro das muralhas soma aproximadamente 2,5 quilômetros, envolvendo uma área de mais de 380 mil metros quadrados — motivo pelo qual historiadores costumam descrevê-lo menos como um forte e mais como uma cidade murada. O acesso principal se dá por dois portões monumentais, o Portão de Amar Singh e o Portão de Delhi. Entre os edifícios que sobrevivem dentro do complexo estão:
- Jahangiri Mahal, o maior palácio residencial do conjunto, construído por Akbar para o filho Jahangir;
- Diwan-i-Am, o salão de audiências públicas, onde o imperador ouvia petições da população;
- Diwan-i-Khas, reservado a visitantes de alto escalão e embaixadores estrangeiros;
- Moti Masjid, a mesquita de mármore branco erguida por Shah Jahan;
- Musamman Burj, a torre-prisão com vista para o Taj Mahal.
Em 1983, a UNESCO reconheceu o Forte de Agra como Patrimônio Mundial, dois anos depois de conceder o mesmo título ao Taj Mahal — os dois monumentos que resumem, em lados opostos do mesmo rio, a ascensão e a queda do imperador que quis eternizar um amor em mármore e terminou seus dias vendo essa eternidade de longe.

O fosso e as muralhas de arenito vermelho que cercam o complexo



Seja o primeiro a comentar.